
Al prefixo cun- _ junto la, junto de, an cunjunçon, cunjuntamente _, junta-se la palabra domínio _ propiadade, cuntrolo, possesson. Antoce: un domínio cunjunto, ua co-propiadade, un cuntrolo partilhado, ua possesson zapropiada. Ne l dreito anternacional, refire-se àqueles territórios políticos subre ls quales múltiplos poderes soberanos cuncordan formalmente an partilhar l domínio (ó soberanie) de forma eigualitária, assi eisercendo ls sous dreitos an cunjunto, sin debedir l território an zonas "nacionales". Ua lhéngua, subretodo quando minoritária i an risco de stinçon, puode tamien ser un cundomínio: fuorça de resisténcia i spácio de lhibardade.
Condominium (An Mirandés)
Um convívio-performance de Rogério Nuno Costa
Para o programa Rota do Sentir / Rota Clandestina
Escola Básica e Secundária de Miranda do Douro
11 de Abril de 2026 _ 14:00-19:00
(percurso duracional)
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CONDOMINIUM é uma série de performances pós-(in)-disciplinares, de dimensão nómada e multilingue, que pretende inquirir, debater e confrontar, através de práticas pedagógicas e colaborativas, problemáticas geo-sócio-culturais e históricas presentes em territórios fronteiriços onde persistem práticas, línguas e falas minoritárias e/ou em vias de extinção. Cada iteração visa abordar e intensificar as relações conceptuais e inter-relacionais que se estabelecem entre a construção de uma performance in situ e as diversas agências que co-habitam e/ou visitam lugares onde acontecem encontros, sejam eles espaços de programação artística, de lazer, escolas, centros sociais, associações juvenis, bibliotecas, ou outras configurações de espaços públicos (jardins, praças, ruas, florestas, baldios) e privados. Inspirado na peça
Vou A Tua Casa, uma trilogia teatral para espaços domésticos estreada em 2003 por Rogério Nuno Costa, o projeto apresenta-se enquanto fórum para a discussão, coletivamente participada, em torno de uma noção expandida de “casa”, experimentando práticas radicais de hospitalidade e co-habitação, e especulando novas poéticas para sonhar, pertencer e existir em comum. Para a “Rota do Sentir”, programa proposto pela Rota Clandestina,
Condominum (An Mirandés) propõe um percurso performativo em torno da Língua Mirandesa, em particular a sua presença no contexto escolar, num formato pós-ficcional de assembleia onde se conspira e difunde um manifesto linguístico sustentado em operações de tradução e retroversão, legendagem e interpretação, imaginação e invocação. Um “encontro-enquanto-performance” que ambiciona a revelação das falas/falhas que emergem do espaço tensional que separa duas (ou mais) línguas, analisando a incompreensão enquanto promessa de multiplicidade. A ocupação do edifício Escola para juntos imaginarmos e experimentarmos um espaço comum (ou comummente habitado), onde formas outras de convivialidade possam ser testadas e protegidas, num diálogo intensificado com o local, o doméstico e o cooperativo. A língua como condomínio.

Direção artística, curadoria, texto e encenação _ Rogério Nuno Costa
Arte sonora e pós-produção áudio _ Vasco Zentzua
Grafismo, ilustração e conteúdos visuais web _ Jani Nummela
Direção de produção _ Cláudia Teixeira
Produtora local _ Joana Braga (AEPGA)
Colaboradores, consultores, facilitadores, participantes e convidados especiais _ Alunos da Escola Básica e Secundária de Miranda do Douro, Alcides Meirinhos, Bozes de l Praino, Cláudia Costa, Dr. António Santos, Duarte Martins, Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa, Fernando Pires, Matias Vaz, Natália Vara, Pauliteiros de Miranda, Paulo Meirinhos, Suzana Ruano
Produção _ Sufoco Associação Cultural
Coprodução _ Rota Clandestina / Rota do Sentir
Projeto financiado por _ Governo de Portugal / Direção-Geral das Artes
Parceiros _ Município de Miranda do Douro, Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro, AEPGA - Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino e Plano Nacional das Artes
Apoios _ Associaçón de Lhéngua i Cultura Mirandesa, Gabinete de Apoio à Presidência (Município de Miranda do Douro), Centro de Formação de Malhadas, Centro de Actividades Lúdico-Pedagógicas do Burro de Miranda, Parque Ibérico de Aventura e Natureza de Vimioso, Palombar, Centro de Valorização do Burro de Miranda, Biblioteca Municipal de Miranda do Douro, Lérias Associação Cultural, Casa de la Música Mirandesa, Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro
Agradecimentos _ Alcino Barros, Ana Luísa Pombo (EBS Miranda do Douro), Angelina Fernandes, António André, Amadeu Soares, Dona Angelina, Dona Iria e Senhor Mário, Dona Olinda, Dona Maria, Dr. António Santos, Félç Galhego, Fernando Pereira, Frauga Associação, Joana Lopes, João Luís, Jorge Jacoto Lourenço, Justina Xastre e alunos da Escola EB 2/3 de Sendim (Gabriel, Yuri e Óscar), Linda Silvana, Luca Calufetti, Manuel Galhano, Maria Augusta Alves, Marina Alves, Miguel Nóvoa, Natália Leitão, Olga Andrade, Pedro Vieira, Pia e Pertti Nummela, Renzo Barsotti, Susana M. G. Silvério
A série de encontros-equanto-performance "Condominium" conta com a coprodução em residência d'O Espaço do Tempo (Montemor-o-Velho) e o apoio do Festival END, Teatro Oficina, Festival Paragem, centro em movimento, Ballet Contemporâneo do Norte e Théâtre de Liège.

L Podcast
Eidiçon 2025
Dues Lhénguas, dues bezes, l sonido de la sanfona por António André, Félç Galhego declamando dous de ls sous poemas, l sonido de la gaita, l'aluno a tentar dezir, l mesmo aluno nua aula de berdade cul porsor Duarte a tentar dezir melhor, ua rumba, la purmeira antrada ne l diairo de Miranda, un ASMR de burros, canhonas, páixaros, grilos i l'auga dun rieiro, l radadeiro diairo de Heilsínquia, ua passaige de “Belheç” de Fracisco Niebro lhida la contra-boç por Alcides Meirinhos an Mirandés i Rogério Nuno Cuosta an Pertués, la stória de Manuol Ruano an modo trelingue, la cunjugaçon polifónica i poli-baliente de ls berbos ser, tener, poder i dezir, l Gabriel a tocar la gaita, i la lhéngua-mai de l Paulo Meirinhos.
Organizaçon, testos i cataçones (eipisódio-piloto) _ Rogério Nuno Cuosta/Costa • Pós-porduçon áudio, arte sonora i cataçones (eipisódios) _ Basco/Vasco Zentzua • Perdutora lhocal, mestra de cerimónias i assistente de biaige _ Joana Braga • Eilustraçones: Jani Nummela (aka Juan de la Charneca) • Porduçon eisecutiba: Cláudie/Cláudia Teixeira • Agradecimientos: Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa, Alcides Meirinhos, Paulo Meirinhos, Dona Maria, Gonçalo Andrade, Matias Vaz.
EIPISÓDIO-PILOTO
A scuitar eiqui (faga-se oubir cul ajuda d'auriculares!):

EIPISÓDIO 1
EIPISÓDIO 2
EIPISÓDIO 3
EIPISÓDIO 4
EIPISÓDIO 5
EIPISÓDIO 6
Diário de Biaige
Diário de Miranda do Douro
Maio de 2025
Não há separação entre o céu e a terra. Como não há fronteira, nem sequer entre o lado de cá y el lado d’alhá. Um planalto que é como o quadro sonhado por Duchamp: não tem nem face, nem reverso, nem alto, nem baixo. Um condomínio, portanto: ao mesmo tempo companhia, concomitância, simultaneidade.
Com.
O céu e a terra mostram-se particularmente tangenciais nos terrenos baldios, onde o azul e o verde se fundem numa cor sem nome, que só quem fala a língua terceira poderá verdadeiramente descrever, mesmo que sem o auxílio de palavras. Os baldios não são de ninguém, e portanto são de toda a gente (pessoas e animais). Condomínios, portanto. Zonas autónomas que, aqui, neste planalto, não são temporárias; há uma lingua franca que é francamente uma língua permanente, a única falada simultaneamente por pessoas e entendida pelos animais. Um condomínio, portanto.
(Nota de bem: quando digo animais, digo mesmo animais, mas na verdade penso nos burros. Os burros de Miranda. Perdoem-se os outros. Os outros burros e os outros animais.)


Diário de Helsínquia
Junho de 2025.
São neste momento 23 horas e 59 minutos e ainda não anoiteceu. Neste lugar, o tempo também é condomínio. Não, não é a geografia, é mesmo o tempo. Às vezes até parece que é o lusco-fusco quem mais rápido se aproxima da linha do horizonte, para quase imediatamente nos apercebermos que não, é mesmo só a promessa, efetivada no aqui e no agora, de outro dia a começar, vagaroso e intenso. Como se o dia fosse sempre o mesmo, não infinito, mas circular: começa onde acaba onde começa onde acaba onde começa onde acaba. Tal como o céu que é terra que é céu que é terra que é céu que é terra do planalto mirandês. Um condomínio, portanto.
Pausa.
Diário de Helsínquia
Junho de 2025
São neste momento 00 horas e 12 minutos e ainda não amanheceu. Se continuarmos a seguir para Nordeste, será lusco-fusco para sempre. É mais ou menos assim que imagino a adolescência, aquele não-tempo onde se chega muito depressa, para ainda mais depressa querermos dele sair. Mas saímos mesmo? Pausa… Aceitamos mesmo esse lusco-fusco que nunca amanhece nem anoitece? Pausa… Não, não é geografia, quando muito será geofasia = o horizonte sempre igual, a fala que nos sai da boca sem esforço, e no entanto, calejada de erros de concordância, o tempo a fugir-nos debaixo dos pés e, no entanto, nós sempre no mesmo lugar, no mesmo horizonte, no mesmo intervalo de tempo entre duas palavras mal-ditas. Eu achava que nenhuma arte e nenhum engenho, conhecidos ou por inventar, pudessem resolver este conflito, chamemos-lhe assim à falta de melhor relógio… Pausa. Cheguei à terra-céu de Miranda e vi dois burros a abraçarem-se, pescoços enrolados num vaivém quase imperceptível, uma lenta e tensa performance que quase parecia o início de um conflito insolúvel do qual apenas um dos burros sobreviveria. Pausa. Só que não. Pausa. Os dois burros abraçam-se assim para que se reconheçam como amigos. Depois desse encontro-performance, serão amigos para sempre. E só assim poderão sobreviver. Sobrevivem os dois. Pausa. Pausa? Pausa… Mais pausas houvesse… E seria lusco-fusco para sempre!


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Parar.
Pedem-me para refletir sobre como pode a arte resolver o conflito. Pode? Não sei é se deve, mas isso fica para o primeiro episódio do podcast… A poder, então só se for para reclamar esse espaço entre o céu e a terra onde a língua franca, entendida por pessoas e animais e pessoas e animais e pessoas e animais, seja essa língua híbrida do para sempre. Como diria o meme: Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos burros. Desculpem: “Quanto mais me dou cun pessonas, mais gusto de ls burros!”
Pausa.
Falta alguma coisa? Falta sempre. Mas neste momento o que falta mais é para sempre. Tal como os burros que eu vi, se não estamos/ficamos/permanecemos juntos, deprimimos.
Mais an brebe…
Diário de Lhisboua
Agosto de 2025
Esta ye la boç de l miu pensamiento. Ye un númaro de magie pa poner a pruoba la mie eisisténcia. Bou a apersentar-me al mundo. Bou a eidentificar-me. Este ye l miu pensamiento an boç alta. Pa alguien scuitar l miu pensamiento you tengo que l dezir. Pa alguien l lher you tengo que l screbir. Sou dues lhénguas: la que digo i la que se scuita. Sou dues lhénguas, sou bilingue i nun adomino nanhue de las lhénguas anque las adomine. Conheço las palabras mas la mie stória fuoge-se de mi to ls dies, cumo me fuoge to l restro. Se you dezir "Esto sou you", quantos seneficados ten l que you digo? Anfenitos. Ye ũa lhida anfenita. I, assi i todo, hai un seneficado que se subrepon ũa i outra beç: "El ye you", scuitan ls outros. Porque la mie stória ye supuostamente eigual a la tue que ye eigual a la tue que ye eigual a la tue, porque to las stórias se puoden siempre resumir n’ũa sola palabra: “stória”. L’eigualdade diç que somos todos un squeleto, que somos todos YOU. L’eigualdade ye l gran seneficado, l bórtice que atrai, l’eigualdade ye l gran mal-dantendido, tan cachaporrudo que anté la çfréncia angulhe. I por esso me dedico a ũa lhida anfenita: la de fazer zaparecer seneficados. Mas fago-los zaparecer nó pa me quedar cun cada beç menos anté chegar al seneficado berdadeiro, a la berdade d’aqueilho que dixe. Nun ye pa fazer cuincidir las dues lhénguas i eidentificar la supuosta “lhéngua oureginal” que you apago seneficados, nó. Fago zaparecer seneficados pa m’ancuntrar MÁS seneficados. Anfenitos. Apago seneficados cumo apago mal-dantendidos. I bou a apercurar la çfréncia anfenita. La mie lhéngua nun ye la tue.
[Scerto de l testo dramático "Bilingue" de José Marie/Maria Viera/Vieira Mendes traduzido para Mirandés por Maties/Matias Baç/Vaz]

Álbum de retratos
Registos de Rogério Nuno Costa e Joana Braga
(Miranda do Douro, Maio e Agosto de 2025)
CONDOMINIUM
(AN MIRANDÉS)
Calendário de Atividades
Workshop / Ensaio Aberto
EBS Miranda do Douro (Polivalente)
31 de março 2026, 15h00-18h00
Com Rogério Nuno Costa & comunidade escolar
Mural
EBS Miranda do Douro (Cantina)
9-10 de abril 2026, 10h00-12h00
Com Jani Nummela & comunidade escolar
Convívio-Performance
EBS Miranda do Douro (vários espaços)
11 de abril 2026, 14h00-19h00
Com Rogério Nuno Costa, alunos & convidados especiais
Conversa
L Cunfessionairo
2026, TBA
Publicação
2027, TBA
Andube anhos a filo cula lhéngua trocida pula oubrigar a salir de l sou camino i tener de pensar antes de dezir las palabras ciertas: ua lhéngua naciu-me, comi-la an merendas, buí-la an fuontes i rigueiros, outra ye çpoijo dua guerra de muitas batailhas. Agora tengo dues lhénguas cumigo, i yá nun passo sin dambas a dues. Stou siempre a trocar de lhéngua meio a miedo, cumo se fura un caso de bigamie. Ua sabe cousas que la outra nun conhece, ríen-se ua de la outra fazendo caçuada, i a las bezes anrábian-se, afuora esso dan-se tan bien que sonho nas dues al mesmo tiempo. Hai dies an que quiero falar ua i sal-me la outra. Hai dies an que quedo cun ua deilhas tan amarfanhada que se nun la falar arrebento. Hai dies an que se m’angarabátan ua an la outra, i apuis bótan-se a correr a ber quien chega purmeiro i muitas bezes acában por salir ancatrapelhadas, i a mi dá-me la risa. Hai dies an que quedo todo debelgado culas palabras por dezir i ancarrapito-me neilhas cumo ua scalada i deixo-las bolar cumo música cul miedo que anferrúgen las cuordas que las sáben tocar. Hai dies an que quiero traduzir ua pa la outra, mas las palabras scónden-se-me i passo muito tiempo atrás deilhas. Antre eilhas debíden l miu mundo, i quando pássan la frunteira sínten-se meio perdidas, i fártan-se de roubar palabras ua a la outra. Dambas a dues pénsan, mas hai partes de l coraçon an que ua deilhas nun cunsigue antrar, i quando s’achega a la puorta pon l sangre a golsiar de las palabras. Cada ua fui pursora de la outra: l mirandés naciu purmeiro i you afiç-me a drumir, arrolhado puls sous sonidos calientes cumo lúrias, i ansinou l pertués a falar guiando-le la boç; l pertués naciu-me a la punta de ls dedos, i ansinou l mirandés a screbir porque este nunca tube scuola para donde ir. Tengo dues lhénguas cumigo, dues lhénguas que me fazírun, i yá nun passo nin sou you sin ambas a dues.
